Esta luz que desflora recantos

Para quem não sabe, Lisboa é a minha grande Paixão.
É o meu amor, a minha mulher, o meu amante, a minha vida.
Por ela, transmuto-me em carvão e em diamante e de novo em carvão,
num ciclo sem fim que me leva, quase sempre, à beira Tejo,
onde vou repousar o olhar no rio da minha cidade.

Por isso, não será de estranhar que aqui se vão "publogando"
algumas das cartas de Amor que, ao longo dos tempos, lhe escrevi.

Esta que se segue é uma delas.

Esta luz que desflora recantos


Realmente, só Lisboa tem esta luz que desflora recantos escondidos num final de tarde e de semana. Numa cidade temporariamente liberta de bípedes apressados, o cair do crepúsculo ilumina becos, vielas e velhinhas de negro vestidas e cobertas com o xaile da tristeza, da solidão e da viuvez. E cada pedaço de rua, cada bocado de casa velha, quase podre, habitada pelo silêncio, pelas ervas e por um ou outro roedor que aí se abrigue, nasce, só para mim, nesta Lisboa que aprendo, dia a dia, a amar.

E como todos os amores, este também provoca paixões e ódios. Paixão pela beleza de uma velha urbe que persiste em crescer em pequenos bairros, onde se sabe o nome do vizinho e se conhecem os gatos e cães das esquinas. E ódio pelos bípedes que a povoam, que a violentam, que não a amam e, por isso mesmo, a destroem.

Destroem-na na sua beleza, porque as manhãs de segunda-feira trazem-lhe pessoas feias de tristezas, de vidas sofridas em fins-de-semana a lavar roupa e a calar gaiatos que nunca cessam o berro contínuo de quem, como a cidade, exige amor.

Destroem-na na sua solidão pronta a ser partilhada e repartida até ao infinito por aqueles que saibam encontrar o seu carinho nas vielas íngremes que se precipitam para o Tejo.

Destroem-na no silêncio violado por carros, buzinas e vilipêndios gritados ao outro, como se ele fosse causa e efeito da falta de estacionamento; no silêncio - que já quase não é escutado com deleite - de pássaros que chilreiam manhãs de sono, de sonho e de Mundo.

E de cada vez que olho esta cidade eternamente enamorada do seu rio, surpreendo-me mais e mais apaixonada. Apaixonada pela vida, pela cidade e pelo homem que me ensina em cada dia a amar esta Olisipo. Porque só podemos amar o que conhecemos, e cada dia que escoa, conheço um pouco mais desta Lisboa que desejo calcorrear de mão dada com ele.

Hoje refiz um bout de chemim já feito a dois. Passei na Av. de Roma, parei na Praça de Londres onde adolescentes irrequietas incomodavam as árvores que estavam e os pássaros que voavam, e groquei a Av. Guerra Junqueiro, como se cada milímetro de passeio fosse o nosso milímetro. Quase senti de novo o perfume dele. E desejei-o para mim. Só para mim. Ser só dele. Desejo esquecer tudo e todos, e esperar por ele. Esperar pela eternidade se necessário, mas ser dele. Só dele. Amo-o. Como amo esta cidade.

E um e outro, por vezes, são-me hostis. Abandonam-me. Ele, no meio da minha paixão ainda não suficientemente maturada. Ela, no meio de um transito caótico, rodeada de buzinas, fumos de escapes e gentes que gritam em forma de impropério a tristeza, a solidão e a dor que as povoam. E eu, quase desejo ser Gaivota e voar alto, mais alto, sempre e sempre mais alto... Como o Fernão.

(c) Dulce Dias - 1995-06-02

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