Carta nunca enviada à minha Avó

Para ti, Avó, onde quer que estejas, quando mais um ano passa sobre o dia em que te despediste de nós.


Carta nunca enviada à minha Avó

96.03.31


Querida Avó!

No regresso a Lisboa nesta noite lacrimejante perscrutei a escuridão como quem tenta decifrar o Desconhecido. E vinha-me à memória uma frase familiar: "Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida".

No ambiente falsamente alegre há um segredo do Polichinelo guardado na sala do Barba Azul. Todos sabemos que estás sentada à espera da Morte, mas nunca se fala em tal. Só tu o referiste – muito brevemente, é certo.

Diz-me, responde-me: como é a sensação de saber que nada mais resta senão a espera? Sabes que vai ser, só não sabes quando. O que sentes? Em que pensas nessas longas 24 horas diárias (poucas dedicadas ao sono) de quase total vigília? Como sentes tu o penso da Morte? Ou… a sua leveza?

Preferes o silêncio, o ignorar, o tentar esquecer, ou queres falar no assunto?

O que mais me magoa talvez nem seja sequer saber que vais morrer – todos o vamos, um dia -, mas sim saber-te nessa mesma consciência, agravada pela quase imobilidade a que estás presa.

Tu, sempre activa, cheia de garra… Tu, que dormias vestida no Verão Quente de 75, pronta a defender o teu território. Tu, que cuidaste anos sem conta do meu Avô enfermo. Tu, que pariste gémeos e ficaste duplamente acordada em cada noite da sua infância. Tu, que me aturaste birras, me baixaste febres à custa de banhos de tronco, me contaste velhas histórias e inventaste novos enredos para me fazeres dormir. Tu, que me ensinaste a distinguir as tristes violetas das odorosas rosas, e a separar o escalracho das plantas úteis. Tu, que sofreste que em silêncio a união da tua filha com um homem casado – na altura em que a Igreja (ópio do povo) ainda não permitia o divórcio. Tu, que por duas vezes viste o teu filho e meu pai abandonar o País – primeiro para combater em África, depois para tentar a sorte na Europa. Tu, que abandonaste o teu Alentejo querido que nunca olvidaste e sempre honraste. Tu, que sonhavas com o paraíso do outro lado da Cortina de Ferro e mantiveste as tuas convicções mesmo depois da queda do Muro de Berlim e continuaste a assinar a Vida Soviética e o Avante! Tu, que viste os teus netos crescer, evoluir, amadurecer – mas que já não vais vê-los terem filhos. Tu, que abandonaste, em desespero de causa, a fazenda de Pegões e, já na segunda metade da tua vida, recomeçaste-a na Landeira. Tu, que me escrevias poemas e compilavas a genealogia.

Doeu-me, sem doer, a morte do Avô. Vegetava e tu eras a sua jardineira. Foi um alívio para ele, e para ti. Mas tu, sempre activa e lutadora, ver-te esperar sentada como quem espera barco sem horário, causa dor.

Nunca fui piegas com a morte. Sempre a considerei como a outra única certeza que há na vida para além do nascimento. Mas o sofrimento choca-me. E mais do que o teu sofrimento físico, penso nos teus outros sofrimentos. Em que pensas e como a pensas? Estás angustiada? Receosa? Frustrada? Repousada?

Foi um choque ver-te. Minguada. Debilitada. Fragilizada. E expectante.

E por tudo o que de ti atrás expliquei – e pelos queijos de leite de cabra que me ensinaste a fazer nos bons velhos tempos da inocência vivida na fazenda do Trapo – custou-me horrores sorrir-te quando o meu coração (ou será o córtex?) só se diluviava em lágrimas.

Talvez tenha sido a última vez que nos vimos. Não sofras, não tenhas medo. Se houver Paraíso, tens lá lugar cativo.

Recebe um beijo da tua neta que nem sempre soube demonstra-te o quanto sempre gostou de ti. E até um destes dias – porque eu nunca digo Adeus.

(c) Dulce Dias

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