De como os portugueses sabem viver a vida ou a frigidez francesa

Passados os choques iniciais da chegada a Lyon, começo - mais de um mês depois - a usufruir da vida francesa. De tal forma que ganhei coragem para me meter sozinha num TVG e partir de Lyon à descoberta da Cidade-Luz - que já me disseram ser escura e sombria. 

De Lyon, ainda conheço pouco. Falta-me um rio com a dimensão do Tejo para me orientar. O Ródano e a Saône não se comparam com o lar das Tágides - nem em dimensão nem em cor. 

Enlameados e encurralados, correm um para o outro com uma celeridade tal que envergonharia os amantes mais sôfregos. 

O meu Tejo, pelo contrário, reserva-se o tempo de se espraiar, deleitando-se no sopé das várias colinas de Lisboa, que beija com a sua língua cor de céu. 

Lisboa tem sete colinas; Lyon, apenas duas - a que reza e a que trabalha -, orgulho dos leoneses. Lisboa é uma mulher voluptuosa; Lyon é um ente andrógino e escorrido. 

Ao clima incerto da região - ora gélido e cortante, ora abrasadoramente sufocante -, junta-se uma população burguesa e fria. Direi mesmo, frígida. É uma população que, no geral, não sabe tirar prazer do sorriso de um par de gémeos, de um abanar de cauda de um cachorro, de um bater de asas de um corvo. 

Pelo contrário, os lisboetas são afáveis e prazenteiros. Embevecem-se com um gatinho vadio, usufruem dos gritos alegres dos meninos tristes, saboreiam um beijo da Lua. 

Ao carácter burguês da cidade dos três rios - o Ródano, a Saône e... o Beaujolais -, temos de somar a incivilidade das pessoas. Gente fechada que não pede desculpa nem diz obrigada. O extremo oposto dos lisboetas, sempre prontos a rebaixarem-se, a submeterem-se, sobretudo perante os estrangeiros - que quase veneramos. 

Os leoneses, como os franceses em geral, não gostam de forasteiros. Chauvinistas, etnocêntricos e xenófobos como ninguém, menosprezam os diferentes, os estrangeiros, os "outros". 

Do resto do mundo, pouco conhecem - e quase nada querem conhecer. Basta-lhes saber que um dia fizeram a revolução que originou as democracias modernas. No fundo, é um sentimento semelhante ao dos portugueses - que há séculos demos novos mundos ao Mundo -, embora com consequências diferentes. Hoje, nós abrimos os braços a todos quantos nos buscam. Hoje, eles fecham as portas a si próprios e quase elegeram Le Pen para presidente! 

(c) Dulce Dias - Crónicas Leonesas - 2002-06-07

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