Presente de Ano Novo: Lenda do Deserto

Este novo ano trouxe-me saudades do meu "Obi-Wan Kenubi". Chamava-se José Manuel Cabral e era umas das pessoas mais Pessoa que alguma vez conheci. Era gente-gente, gente que vive e se interroga, gente que vê mais além. Ensinou-me a ler para lá das palavras, a ver para lá dos rostos, a sentir para lá da dor. Um dia, foi chamado às estrelas que tanto amava. Chorei, é certo. Vi o fumo do seu corpor elevar-se no céu de Lisboa, mas sei que o seu "É" permanece. Deixou-nos, a todos os que o conhecíamos, uma imensa saudade. Mas também muita Força.

Recordo aqui uma carta que me escreveu, em 1993, quando eu estava a estudar em França. No final, assinava assim:

"Obi-Wan Kenubi voltará.
No Grande Espaço, estou contigo em forma de estrela...
Que a Força esteja contigo.
A alegria de uma festinha... e a doçura de uma ternurinha saudosa!"


É dele este conto que hoje aqui vos trago, e que espero que gostem, tanto quanto eu. É, para os meus leitores, o meu presente de Ano Novo.

Lenda do Deserto


"Para as pessoas que sabem ser a
Vida algo mais que aquilo que
os nossos olhos vêem..."


"Quem é mais responsável que a Gaivota que descobre e desenvolve um significado, um propósito mais elevado na Vida? Passámos mil anos a lutar por comida, mas agora temos uma razão para viver, para aprender, para descobrir, para sermos livres! Dêem-me uma oportunidade, deixem-me mostrar-vos o que descobri..."
RICHARD BACH, Poeta e Aviador



Olhos-de-Amêndoa e Pele-de-Gato eram meninos. Conheciam as árvores pela essência, por aquilo que se chama árvore. E os montes. Olhos-de-Amêndoa era pequeno, como um animal do deserto, e cobria-o pele de cobra e gordura de bisonte. Tinha feito com as mãos colares de missanga, e mercadores estrangeiros. Bebia leite de cabra que transportava numa bolsa de coiro seco...

Encontrou um dia um guerreiro, quando se perdeu no deserto. O guerreiro era muito mais alto que Olhos-de-Amêndoa, e tinha à cintura uma bolsa com pétalas de flores selvagens. Olhos-de-Amêndoa gostou da bolsa e perguntou o que seria preciso fazer, que acto de coragem, para a possuir. O guerreiro não respondeu. De facto, não falava nunca. Sorriu apenas, e pegou-lhe na mão...

De dia, encontravam água, frutos e árvores. De noite, lobos, cavalos e ratos. Descansavam ao entardecer, e enquanto Olhos-de-Amêndoa adormecia, o guerreiro cobria a bolsa de terra colorida e pensamentos antigos.

Percorreram o deserto em várias direcções e viram que ele não tinha limites: não acabava, nem começava. Um dia, o guerreiro falou, e pela primeira vez Olhos-de-Amêndoa lhe conheceu a voz. O guerreiro desejou-lhe paz, ofereceu-lhe a bolsa de couro e indicou-lhe a direcção que devia seguir.

Depois, partiu...

Olhos-de-Amêndoa e Pele-de-Gato eram meninos. Conheciam as árvores pela essência, por aquilo que se chama árvore. E os montes.

De Pele-de-Gato nunca ninguém falou...

"Cada um de nós é, em realidade, uma ideia ilimitada de LIBERDADE"

Fernando Manuel Ferreira/José Manuel Cabral
N/M CASSINGA, 1972

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