Depois desta longa ausência de prosas, cá está um texto recente, escrito aqui, em Lyon.
Parte eventualmente integrante de uma eventuais Crónicas Leonesas.

Boa leitura (e muitos comentários, por favor!)



A inevitabilidade da partida



Basílica da Fourvière - LyonEm cada gesto, em cada decisão, há uma inevitabilidade de partida. Todas as opções são escolhidas na incerteza do amanhã. A vida decorre, assim, a termo quase certo.

Simultaneamente, há uma sensação de urgência, uma pressa de fazer antes que seja tarde. Antes que seja tarde demais. O amanhã pode não ser aqui. O amanhã não se sabe onde será. O amanhã não será, certamente, aqui. Por isso, urge fazer, aprender, conhecer, usufruri, viver.

E, no entanto, o tempo escorre a uma velocidade proibitiva. Acabei de chegar. Contudo, o calendário garante que passaram quase três meses.

Metade dos projectos que trazia parece, uma vez mais, adiada. Por falta de tempo. Pela inevitabilidade da partida. Pela incerteza do amanhã.

Foram dois longos meses vividos em câmara lenta. Quase como um filme de Manoel de Oliveira, que teima em não evoluir, em não terminar. E, de repente, os dias sucedem-se à velocidade de Oliver Stone em Natural Born Killers. Sem tempo para respirar. Sem conseguir dominar o relógio que avança – tique-tac, tique-tac – para o fim de uma estada que sabia curta. Mas que apesar de, por vezes, parecer longa – ah! o tempo interior -, transmite, contudo, uma sensação de rapidez insustentável.

(Como é estranho, este estado de espírito. Este sentir que o tempo foge, esta vontade que Outubro chegue, este desejar que Outubro não chegue!)

Uma única coisa permanece imutável: esta certeza interior de que cada gesto, cada decisão, encerram em si a inevitabilidade da partida!


(c) Dulce Dias - Crónicas Leonesas - 17.07.2002

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