Ali vai a louca

O Grito, de Munch

I
Quero chorar à chuva
que se chorar na chuva ninguém vai notar
a cor das lágrimas.
Que em público não posso chorar.
Ninguém vai crer que haja lágrimas sempre iguais.

Quero que caiam mais temporais
que não haja luvas nem chapéus
nem telhado ou chão que possa abrigar-me.
Quero apenas viver na chuva
e encharcar as poças salpicar as gotas molhar as nuvens.
Quero gritar na rua
"Onde está a lua?" que nunca a vejo.

E quando me virem de negro vestida
grossos cordões da cor do breu nas minhas faces
enfiada em farrapos ensopados de dor
quero apenas que digam
"Cuidado! Ali vai a louca!"

II
Gritarei ao mundo a minha loucura.

Hoje e ontem e daqui a mil anos
haverá poeiras de insanidade em cada gesto que faça.
Haverá, certamente, pedaços de demência em cada olhar vazio
e outros iguais de indiferença em cada espaço frio
preenchido apenas pelo calor da morte.

E olharei o espelho da vida
partido?
partida?
rir-me-ei de mim e gritarei
"Cuidado! Eu sou a louca!"


III
E foi na escura noite que parti
iluminada pelo alvor da dor.
Fui daqui para ali e dali para nenhures.
E voltei ao ponto de partida sem notar sequer se parti.

No círculo da loucura amaldiçoada
amaldiçoei também a coragem que não tive.

E não parti. Que não sou louca!

(c) Dulce Dias - 1997-11-05

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